O segredo do cacau amazônico está nos menores insetos que você pode imaginar (e nos ribeirinhos que os conhecem)
- Matheus Barreto

- 28 de abr.
- 3 min de leitura
O Pesquisador do INPA e doutorando em Ecologia, Gleycon Veloso da Silva estuda os pequenos polinizadores que garantem a produção do cacau na Amazônia. Em entrevista a equipe do Piagaçu, ele revela descobertas feitas em comunidades ribeirinhas do Amazonas e aponta caminhos para unir ciência, conservação e bioeconomia.
No coração da Amazônia, onde o rio sobe e desce marcando o ritmo da vida, o cacau silvestre encontra seus maiores aliados: insetos minúsculos, como os mosquitos da família Ceratopogonidae — popularmente conhecidos como maruins. São eles que, ao visitar as flores do cacaueiro, garantem a polinização e, consequentemente, a produção do fruto que move economias e sustenta famílias ao longo do Rio Madeira.

Quem nos guia por esse universo invisível, mas essencial, é o pesquisador Gleycon Veloso, doutorando em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Polinização. Com 11 anos de experiência em gestão de projetos ambientais e socioambientais, ele liderou coletas de campo em comunidades como Verdum, Sempre Viva, Aldeia Caiapé e Delícia, na calha do Rio Madeira.

Na floresta, um santuário de polinizadores
Trabalhar na Amazônia exige paciência, planejamento e, acima de tudo, paixão. Para Gleycon, o desafio logístico foi recompensado pela diversidade encontrada nas flores do cacau.
“Embora parte dos espécimes ainda esteja sob análise de especialistas — o que mostra a complexidade da nossa biodiversidade —, a variedade de visitantes florais foi fantástica. Coletamos desde besouros, formigas e até tripes. Mas os grandes protagonistas são os mosquitos Ceratopogonidae.”

O maior obstáculo em campo, segundo ele, foi a observação minuciosa das flores minúsculas sob o calor e a umidade da floresta. No entanto, a descoberta principal trouxe uma mensagem clara: o cultivo de cacau em áreas conservadas cria um santuário para esses insetos.
“Sem a floresta preservada ao redor, perdemos os agentes que garantem a produtividade da planta. É a prova de que a conservação e a economia caminham juntas.”
Saberes tradicionais que guiam a ciência
Mais do que coletar dados, a pesquisa de Gleycon foi construída com as comunidades ribeirinhas. E foi lá que encontrou um dos pilares do estudo: o conhecimento tradicional.
“Fomos recebidos com uma abertura generosa. Os moradores convivem diariamente com o cacau, mas muitas vezes não haviam focado nos detalhes dos polinizadores. Foi gratificante ver o momento da ‘descoberta’ quando explicamos o processo — eles imediatamente identificavam ‘os bichinhos pequeninos’ voando em volta das flores.”

Os agricultores locais compartilharam décadas de observação: o ritmo do cacaueiro no Rio Madeira é regido pelas águas. Quando o rio sobe e as chuvas aumentam, mais flores, mais insetos e mais produção aparecem.
“Sem esse conhecimento, nossa pesquisa teria uma lacuna irreparável. A participação deles foi o que permitiu compreender como o cacau realmente ‘funciona’ no chão da floresta.”
Três caminhos para o futuro do cacau no Madeira
Os resultados da pesquisa apontam direções práticas para unir produtividade, sustentabilidade e valorização da floresta. Gleycon resume em três pontos:
Cuidar de quem trabalha para a gente — proteger áreas naturais e manter o solo coberto com folhas secas e matéria orgânica garante a casa dos polinizadores.
Produzir com a floresta — incentivar sistemas agroflorestais, com o cacau consorciado a outras árvores, mantém a umidade e a vida de que a planta precisa.
Valorizar o que é nosso — a polinização é um serviço gratuito da natureza. Ao reconhecê-lo, fortalecemos a bioeconomia e o orgulho local.
“O próximo passo é unir o que a ciência descobriu com o dia a dia do produtor. Queremos criar estratégias que ajudem as famílias do Rio Madeira a colherem mais e melhor, respeitando sempre o tempo e o regimento da floresta.”
Sobre o pesquisador:
Gleycon Veloso é doutorando em Ecologia pelo INPA, mestre em Ciências Ambientais, especialista em Docência na Educação Profissional e Tecnológica, gestor ambiental e técnico em agroindústria. Atua há 16 anos na área, com 11 dedicados à gestão de projetos ambientais e socioambientais. É pesquisador do INCT Polinização e do Grupo de Pesquisas em Abelhas (INPA), além de colaborador em projetos de agroecologia, meliponicultura e empoderamento feminino.





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